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“As enfermidades psíquicas como a depressão e o burnout são a expressão de uma profunda crise da liberdade.” Byung-Chul Han.

 

 

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Rousseau, Henri. The sleeping gypsy, 1897.

Sabe aquela sensação de que, com o passar dos anos e a democratização da tecnologia, trabalha-se cada vez mais e por cada vez mais tempo? Pouco importa se em casa ou no escritório, o celular é conexão ininterrupta com variadas demandas de produção profissional e pessoal. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Perdeu-se o limite.  O filósofo coreano Byung-Chul Han, no seu Sociedade do Cansaço, fala dessa (enlouquecida) lógica contemporânea do trabalho como sintoma chave na compreensão de sociedade atual. No século XXI, diz Han, tornamo-nos empresários e mercadorias de nós mesmos.

cansaço“Na sociedade do trabalho e do desempenho de hoje, que apresenta traços de uma sociedade coativa (que inibe o livre arbítrio), cada um carrega consigo um campo, um campo de trabalho. A característica específica desse campo de trabalho é que cada um é ao mesmo tempo detento e guarda, vítima e algoz, senhor e escravo. Nós exploramos a nós mesmos. O que explora é ao mesmo tempo o explorado. Já não se pode distinguir entre algoz e vítima. Nós nos otimizamos rumo à morte, para melhor poder funcionar. Funcionar melhor é interpretado, fatalmente, como melhoramento do si-mesmo.”

Esse funcionamento cobra um preço altíssimo. “Cada época possui suas enfermidades fundamentais”, lembra Han, e, hoje mais do que nunca, adoecemos de positividade, de excesso. Excesso de ação, de trabalho, de estímulos, de informação, de absorção. As patologias características da sociedade do desempenho têm, segundo o filósofo, caráter neuronal: doenças como a Depressão, Síndrome de Burnout (SB), Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL). Quadros que “não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo, imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade”.

“O sujeito do desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma.”

As patologias do desempenho seriam, então, adoecimentos do cansaço, do esgotamento, da ultrapassagem da medida humana.  Estes estados, que Han chama de “infartos da alma”, são exaustões solitárias, que consomem a capacidade humana de falar e destroem, assim, a possibilidade de proximidade, de comunidade, de troca autêntica. Canseira indizível.

Mas em contraste a esta condição de estafa muda e adoecida, Han aponta a existência possível de outro tipo cansaço: um que fala, vê e reconcilia.  Aqui, a exaustão é compreendida como um convite a uma fundamental diminuição do eu, que se abre a uma nova relação com o mundo e adquire a capacidade de inspiração e de “não fazer”.

“No tornar-se-menos do eu, desloca-se o peso do eu para o mundo. É um ‘cansaço que confia no mundo’; enquanto eu, o cansaço-eu enquanto cansaço solitário, é um cansaço sem mundo, destruidor de mundo. Ele ‘abre’ o eu, torna-o ‘permeável’ para o mundo. Restabelece a dualidade que foi totalmente destruída no cansaço solitário. A gente vê e é vista. A gente toca e é tocada. […] É o único que possibilita um demorar-se, uma estadia. O menos no eu se expressa como um mais para o mundo: ‘O cansaço era meu amigo. Eu estava ali de volta, no mundo’.”

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LIMA, A. A. Cansaço: patologia e redenção da sociedade do desempenho. 2017. Disponível em; <http://www.ressonancias.com/cansaço-patologia-e-redenção-da-sociedade-do-desempenho>. Acesso em: dia/mês/ano.

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