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“É possível que a Índia seja o mundo verdadeiro e que o homem ocidental viva num hospício de abstrações”. Jung.

 

 

 

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Karen HOLLINGSWORTH, Caleb’s dream, 2014.

Toda viagem é ilusão e todo relato de viagem, ficção. “Na Índia, porém, é a ilusão que é real”, diria o francês Jean-Claude Carrier, e o que se vive por lá, “uma quimera em exercício”.  O viajante do século XXI pode ter a impressão – equivocada –  de que o mundo perdeu a graça: está tão pasteurizado e tão homogeneizado que já não existe mais aventura que escape às formas enganadoras da modernidade e à lógica contemporânea de produção e consumo. Talvez, um dia, este chegue a ser o caso, mas ainda não. O desencantamento do mundo ainda não afeta a Índia.

 “A Índia observa a si mesma, analisa a si mesma (o que chega a ser um dos exercícios favoritos dos indianos), mas ela não explica a si mesma. Se reunirmos todos os dados concebíveis (territórios, populações, línguas, religiões, economias, modos de vida), se os estudarmos de acordo com os nossos métodos, o mais seriamente e imparcialmente possível, só podemos chegar a uma conclusão implacável: a Índia não existe. Um conjunto como esse não pode funcionar. Ele é incoerente. Engloba tantos níveis sociais, tantas realidades imaginárias, tanto passado, tanto futuro, tanto presente, que uma coesão geral dependeria de um milagre cósmico. Contudo, este é o caso. A Índia existe e funciona. ” (Carrier, Índia um olhar amoroso).

Para se ter um vislumbre deste complexo funcionamento, vale a leitura dos perfis biográficos magistralmente retratados por William Dalrymple, em Nove Vidas, em busca do sagrado na Índia moderna. Baseado em entrevistas feitas com personagens inusitados, colhidas em diversos lugares do subcontinente Indiano, Dalrymple nos oferece a chance de entrar em contato com noções e modos de vida são, para nós ocidentais, absolutamente extraordinários e desconcertantes.  Uma prostituta sagrada, um escavador de poços dançarino que incorpora divindades, um escultor de ídolos em bronze, um cantor cego.

São múltiplos relatos, num livro que não tem uma linha reta, que não esclarece em demasia o que necessita de penumbra. Especialmente marcante é o primeiro capítulo, sobre o caminho de renúncia radical de uma jovem religiosa jainista. Ao tempo da entrevista, a monja Prasannamati Matagi anda descalça, come cada vez menos e deixou sua família ainda adolescente em busca da transcendência e da iluminação:

nove vidas“As pessoas pensam que nossa vida é dura, e naturalmente ela é, em muitos aspectos. Mas sair para o mundo desconhecido e confrontá-lo sem uma única rupia no bolso significa que diferenças entre ricos e pobres, instruídos e iliteratos desaparecem e emerge uma humanidade comum. Como nômades, nós, monges e monjas, somos livres das sombras do passado. A vida nômade, sem posses materiais, liberta a alma. Existe uma sensação maravilhosa de leveza, vivemos cada dia como ele se oferece, sem sentimento de propriedade, sem peso nem carga. A viagem e o destino se fundem, o pensamento e a ação se fundem, até que parecemos nos mover como um rio na direção do desapego completo” . (p.42)

Nas Nove Vidas descritas por Dalrymple, o passado e os mitos são assimilados pelo presente e o prolongam. Nove histórias impactantes sobre outras formas de estar no mundo, cuja coerência questiona nossos valores e nos convida a ir além das aparecias.


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LIMA, A. A. Nove vidas: retratos atemporais da Índia moderna. 2017. Disponível em; <http://www.ressonancias.com/nove-vidas-retratos-atemporais-da-india-moderna>. Acesso em: dia/mês/ano.

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